Os equívocos e mal-entendidos sobre o casamento são amplos e disseminados na sociedade atual.
Assim, ao mesmo tempo em que um casal de velhos que andam de mãos dadas num shopping e estão juntos há cinquenta anos, gera admiração e inveja nas pessoas, também os julgam com desprezo, pensando-se que, afinal, um casal que vive décadas juntos só pode ter se tornado irmãos. A tal ponto são ambivalentes os sentimentos que o casamento desperta nas pessoas.
A fenomenologia de um casal
Em termos fenomenológicos, define-se um casal bem-sucedido como aquele capaz experimentar amor, respeito e admiração mútua mesmo após muitas décadas de coabitação e compartilhamento de hábitos comuns.
Outra marca de um casal feliz é o fato de experimentarem uma agradável sensação de conforto, intimidade e confiança na presença um do outro, o que não se sente facilmente com amigos ou familiares, nos quais conflitos por competição e inveja tendem a ser maiores.
Soma-se aqui o enorme desafio de manter vivo, íntimo e profundo o vínculo entre um casal após a chegada dos filhos, que pode se deterioriar por conflitos de valores na criação dos mesmos ou conluios inconscientes, como por exemplo, quando a mãe se alinha com os filhos contra o marido ou vice-versa.
A propósito, sobre isso é bastante comum a visão de o propósito supremo de um casal é gerar e criar filhos, quando, na verdade, sem um sólido amor conjugal prévio, é quase impossível um casamento continuar de pé depois dos filhos criados.
A formação de casais na natureza
Voltando ao tema, evolutivamente a formação de casais parece ser uma engenhosa criação da natureza para nos proteger do desamparo (Bowlby, 1982), quer estas duas pessoas continuem transando ou não, sendo amor e sexo, como já dizia a grande Rita Lee, coisas relacionadas porém distintas.
Apesar de que o que observo sobre isso é que, à excessão dos verdadeiros perversos, sendo talvez o maior exemplar deles Marques de Sade, o sexo feito sem amor é quase sempre sentido pelas pessoas como uma compulsão degradante. Como se o amor “limpasse” a conscupiscência e a baixeza com que vimos o sexo.
Monogamia
Conclui-se do dito acima que a monogamia da espécie não corresponde, neste caso, à quantidade de parceiros sexuais que uma pessoa tem, mas ao número reduzido de vínculos afetivos que a espécie humana é capaz de criar ao longo da vida. O que também ocorre em outras espécies.
Exemplifica-se o quão sexo e companheirismo não estão necessariamente ligados, no caso de muitas espécies onde tanto o macho quanto a fêmea buscarão outros parceiros para se reproduzirem no tempo devido, e depois retornarão ao outro membro do casal. Ou ainda aqueles que, tendo morrido o(a) parceiro(a), vítima de doença ou ataque, permanecerão sozinhos até o final da vida.
Daí que, ao contrário do que se pensa, evolucionariamente, a criação de um casal estável, em muitas espécies animais, inclusive a humana, não visa o sexo, mas sim à estabilidade, proteção e segurança.
Atração sexual
Disso se conclui que, se a atração sexual pode ser um dos gatilhos para a formação de um casal, não parece ser a única, e nem mesmo a mais importante, havendo muitos outros elementos que levarão duas pessoas a permanecerem juntas, tais como segurança, proteção, admiração, estima, afinidade de gostos e ideias e senso de estabilidade. A hipervalorização da atração sexual na manutenção de um casal, neste caso, parecendo ser mais um preconceito do que um fato.
Em casamentos longevos, a realidade demonstra que a atração sexual vai perdendo importância como um gatilho sexual, ao longo do tempo e graças ao envelhecimento, passando a ganhar destaque o senso de intimidade entre ambos, que tenderá a tornar o sexo cada vez melhor, pois não há mais vergonha entre eles.
Ao contrário disso, casais que transam sem intimidade afetiva tenderão, após uma noite de sexo, a sentir muita vergonha um do outro e irem embora correndo.
Sobre isso, o que observo em minha prática clínica é que o imperativo de que todo casal deve começar com uma paixão arrebatadora dificulta enormemente a vida das pessoas, pelo enorme grau de idealização e infantilismo que comporta.
Em síntese, os motivos pelos quais amamos alguém são tão misteriosos e insondáveis que reduzir tudo à coisas como beleza e atração sexual me parece simplificar demais as coisas.
A capacidade de amar sendo, portanto, uma competência psíquica que envolve grande maturidade e sabedoria.
O vínculo afetivo no casamento
O vínculo afetivo que se cria entre um casal que permanece décadas juntos tende a ser extremamente forte e ser marcado por intensa interdependência afetiva entre eles. A tal ponto que um deles pode ficar gravemente prostrado e chegar a morrer, se o outro o abandonar ou vier a falecer, o que se vê algumas vezes entre casal de velhos, ou em alguns divórcios onde antes havia amor.
Outro aspecto importante é que é próprio dos vínculos afetivos provocar nos envolvidos reações afetivas intensas, dada à enorme importância que o ser amado passa a ter na vida do sujeito, e o estrago que este pode causar se vier a traí-lo, decepcioná-lo ou mesmo morrer.
Disso decorre que a perda de alguns vínculos afetivos, por morte ou separação, efetivamente nunca serão completamente superadas, a tal ponto amar e se entregar comporta enormes riscos.
Observando como psicanalista casais estáveis que permanecem juntos por décadas, eu mesma sendo um exemplo disso, observo que o sucesso deles deve-se ao fato de serem capazes de repactuarem entre si, a cada nova e inevitável crise, o desejo de continuarem juntos, movimento que exige enorme maturidade e disponibilidade para o diálogo.
Outro fator crucial no sucesso de um casal é ambos poderem reconhecer que precisam um do outro, o que as pessoas imaturas e tolas erroneamente intepretarão como um sinal de fraqueza. Contempla-se tal ideia na formulação madura de que fica-se bem só, embora muito melhor com aquela pessoa.
Sobre isso, considerar que envelhecer completamente só é uma das coisas mais tristes que pode existir, conforme observo em pacientes mais velhos, e em velhos da minha convivência, pode ser um importante caminho para se sair mais rápido da arrogância.
Posição ideológica
Posições ideológicas também devem ser consideradas aqui, já que a generalização de que todo homem é um potencial opressor, algo típico da esquerda, gera um estado de paranoia permanente, sobretudo nas mulheres, e dificulta enormemente a formação de casais numa certa classe.
Enquanto isso, nas camadas populares, a valorização dos vínculos familiares deve-se a um fator prioritário de sobrevivência, já que todo pobre aprenderá desde cedo que sem a ajuda da família ele não terá a menor chance.
Considerações finais
Do dito acima, conclui-se que nós não fomos programados pela natureza para desenvolver uma quantidade muito grande de vínculos afetivos ao longo da vida, o que talvez explique a recusa de muitas pessoas que se divorciaram ou enviuvaram, após longos anos de um casamento bem-sucedido, a se vincularem de novo tão profundamente a alguém.
Infelizmente, o homem moderno tem esquecido com enorme facilidade de sua origem comum a outros animais, o que significa que nele continuarão a operar poderosos instintos de ligação, quer ele queira, quer não.
A formação de casais é uma expressão deste impulso; necessidade tão antiga na história da nossa espécie quanto nosso impulso por guerrear e fofocar.
Referência bibliográfica
Bowlby, John. Formação e rompimento dos laços afetivos. São Paulo: Martins Fontes, 1982.